CIDADE DAS SOMBRAS: O Guardião – Daniel Polansky – Geração Editorial

Sinopse:
“Casa Negra, ele sabe que na Cidade das Sombras a vida vale nada e nenhum crime é investigado, mas algo no rosto crispado da menina o toca. Confrontado com os valores de uma vida que deixou para trás, ele seguirá uma pista de violência e rumores, que o levará das ruas empobrecidas às comunidades fortificadas dos ricos.
Ele vai descobrir que a verdade é mias tenebrosa do que poderia imaginar. Na Cidade das Sombras não se pode confiar em ninguém. Nas fortalezas dos poderosos há segredos que não devem ser revelados. No entanto, sem nada a perder além da própria e desgraçada vida, o Guardião irá até o fim em sua busca, num ritmo alucinante e cada vez mais intenso.”
O Guardião, um tipo solitário e desiludido que viveu como combatente numa grande guerra, sobreviveu a uma peste e leva a vida como narcotraficante e se droga para suportar o seu cotidiano sórdido (desgraça pouca é bobagem). Porém terá que acordar o seu agente gélido adormecido, para investigar o cruel assassinato e estupro de uma garotinha que, tudo indica, tem a ver com motivos que envolvem a magia (eu ia dizer “motivos mágicos”, mas ia ficar muito Disney ou Hora de Aventura), ou como eles preferem chamar a “arte”.

Sobre o autor:

Bem… o cara é um estreante, o livro é de 2012, é o seu primeiro… não dá pra ter muito mais informação sobre ele (a não ser que você o tenha como amigo no Facebook). O que eu sei é que, além de uma cara de nerd típica, Daniel Polansky nasceu em Baltimore, Maryland. Ele vive atualmente fora dos Estados Unidos. E o Guardião é seu primeiro romance (mas eu já sei que se trata de uma trilogia).
Alguns críticos daqui e de fora, estão elogiando bastante o rapaz e estão atribuindo a ele um novo estilo literário denominado “fantasia noir” (apesar que eu discordo em partes com a paternidade do gênero, pois tivemos algumas séries de HQ com histórias clássicas de heróis adaptadas a este contexto noir). Comparam ele como uma fusão de Tolkien com Tarantino (o que eu também acho um pouco exagerado, mas… agente tem que vender neh editoras!?) para poderem explicar essa fusão de gênero que ele “criou”.

Quando eu li “fusão de Tolkien e Tarantino” essa foi a primeira imagem que me ocorreu

Minhas considerações (esdrúxulas):

Hard Boiled, you know what I mean?

Devo confessar que não sou muito fã de livros de fantasia, não por que eu não goste do tema, mas é porque os autores do gênero quase sempre dão muitas voltas nessas histórias e costumam ser detalhistas além do necessário. São tantos nomes impronunciáveis, lugares desconexos, costumes esquisitos, fisionomias desconhecidas e trejeitos tão improváveis, que sinceramente, eu duvido que haja alguém realmente ligando ou se importando com todos os personagens dentro da trama (ao menos que você compre uma agenda só pra marcar o nome dessas pessoas, lugares e raças. E não se esqueça do registro de várias gerações de uma mesma família no caso do Tolkien). É como se estivesse escutando o causo de um amigo e você ficasse dizendo pra ele “hã, tá, sei… mas e daí? DIZ LOGO O QUE ACONTECEU PORRA!!!” Entendam bem, não estou desmerecendo este tipo de literatura, estou afirmando que sou muito preguiçoso para viver uma outra vida que não seja a minha.
Por outro lado sou muito fã de romances policiais, com suspense e com aquele plot twist que faz você parar no meio da leitura e dizer: P.Q.P!
O que o Daniel conseguiu fazer, foi pegar os elementos de fantasia e, ao invés de ficar contextualizando os motivos das coisas serem como são na Cidade das Sombras, ele simplesmente caga pra isso, e descreve tudo de uma forma bastante intuitiva. Eu sei por exemplo, que um mago, ou praticante da “arte”, é o que é, pois o autor em algum momento da história, coloca esse personagem em uma situação que explica toda a sua origem e utilidade e é assim com tudo: religião, raças, costumes e etc. Por tanto conseguimos ver diversas características de fantasia que agradam um fã de Senhor dos Anéis, mas sem ficar dissecando tudo e todos, amarrando o andamento da história (o que deixaria um leitor de romance policial com vontade de cortar os pulsos).
Polansky também trouxe dos gêneros policiais noir, aquele negócios do detetive “modafoca” ou como eles chamam nos EUA, os hard boiled (algo tipo “durão”). Como uma narrativa toda em primeira pessoa, sempre do ponto de vista do protagonista, que usa e abusa da sua linguagem vulgar e direta, típica de quem se considera acima da lei, muito bem ornamentado com a atmosfera suja e decadente do lugar.
Aliás, muitas vezes eu tive problemas em criar a imagem da Cidade na minha cabeça, por que por mais que eu soubesse que se tratava de uma história atemporal e fora da nossa realidade, eu não consegui tirar da minha cabeça uma Los Angeles do período da grande depressão ou uma Londres de Jack estripador.
Uma coisa que eu achei bem legal e que nitidamente remete ao gângster dos anos 30, é como na história, as pessoas são reconhecidas por suas caracteríticas. Assim como Al Capone era chamado de Scarface, Yancey, um ex-soldado amigo de Guardião era conhecido como Rimador, por ser habilidoso na música e, outro caso interessante é de lorde Beaconfield, com a alcunha de Espada Sorridente, por se tratar de um excelente espadachim (e extremamente satisfeito com o fato).
Como nosso anti-herói é antes de tudo, um narcotraficante e usuário de drogas, você irá se deparar diversas vezes com nomes como: Venonírica e Sopro de Fada, assim como os seus efeitos. Isso dá uma carga muito mais sombria na história e principalmente no personagem, justificando as suas atitudes.
Mas pra resumir, eu gostei bastante do livro… literatura nerd na veia. O fato do autor ser bastante direto não é sinônimo de falta de empatia ou simpatia por algum personagem (o que é típico nos livros de fantasia), muito pelo contrário, você vai encontrar criaturas adoráveis e desprezíveis e sentir isso por elas. Talvez você fique com algumas perguntas sem respostas, mas lembre-se, é uma Trilogia (espero que de três livros mesmo), por tanto encare dessa forma.
Um pontinho negativo vai para editora. Eu sei que ninguém é perfeito, mas encontrei vários erros de digitação (mais do que os de costume) porém nada que desabone, é mais pra galera da revisão ficar esperta para as próximas edições.

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Leandro

Nascido e criado em um dos ambientes mais inóspitos do planeta. Ele lutou para não se corromper em um lugar onde o medo, a morte e um odor putrefato selecionavam os indivíduos mais aptos a subir (ou descer) um degrau na cadeia alimentar. A granja de codornas foi um verdadeiro teste de coragem, onde lidando com animais perigosos e com pouco senso de higiene, teve que sobreviver coletando fezes e ovos… muitas vezes com as próprias mãos!!! Depois de um plano audacioso que envolvia uma faculdade de publicidade e 40 toneladas de dinamite, ele conseguiu escapar e deixou para trás esse lado negro (e fedido) da sua vida. Mas mesmo hoje, com sua família e seu império da comunicação, há algo que ele faz questão de não esquecer: comprar ovos de codorna para salada!