SpamFlix: Jessica Jones e o empoderamento da mulher

Jessica JonesAntes de falar da nova série da Marvel no Netflix, Jessica Jones, tenho que ressaltar dois pontos muito importantes: 1 – só vi os três ou quatro primeiros episódios por aí. 2 – eu não sou tão a par do movimento feminista para saber teorias, filosofias e possivelmente sou cheio dos vícios machistas enraizados sem saber detectá-los, assim, posso dar umas mancadas aqui sem perceber. Tendo isso em vista, vamos falar um pouco sobre essa série que já está com as cinco estrelinhas cheinhas no ranking do serviço de streaming.

Jessica JonesAntes mesmo de ver a série você já tem algumas características interessantes. É das primeiras heroínas dos quadrinhos a se lançar como protagonista na sua mídia nessa nova leva da cultura pop vinda desde o final dos anos 90, e que ganhou força no final da primeira década do milênio (anos zero? sei lá). Assim como no mundo “real”, o protagonismo da mulher chegou atrasado em meio a tantos super heróis do sexo masculino, e principalmente por causa dos tabus do mercado e desse mundo machista que vivemos mesmo. Quando digo tabu de mercado, é por que não passa de tabu mesmo, afinal, segundo um estudo da MPAA no público de cinema do ano 2014, homens e mulheres dividem a audiência (ok série é tv, aliás netflix nem tv é exatamente, mas não imagino que a audiência aqui seja tão diferente).

Jessica JonesMulheres ainda recebem caches menores que atores homens, a atriz Charlize Theron já reclamou disso “ao vivo” no show do Oscar. Ainda puro tabu. Meryl Streep tem mais indicações ao Oscar do que qualquer um homem já sonhou em ter. E tem mais Oscar também, só empatando com o Daniel Day-Lewis. Ela tem 19 indicações tendo trabalhado em 51 filmes, ou seja, quase metade dos trabalhos são oscarizáveis. O cache dela não chega perto de Dwayne Johnson. The Rock. Um ator que é apenas muito forte, simpático e carismático mas ouso dizer que nunca será indicado ao Oscar – realmente ousado.

Jessica JonesEnfim, voltando à série. Sabe quando você já tá com uma coisa na cabeça e fica procurando enxergar aquilo em tudo? Pois bem, a abertura da série começa com um jazz instrumental, e o que veio na minha mente, um meio que a mulher não é muito reconhecida, principalmente no passado, até que se torna um rockzinho contemporâneo, onde a mulher já tem mais participação e protagonismo. É coisa da minha cabeça? Pode ser… até por que quando começa o episódio você vai percebendo que se trata de um tema policial/investigação, onde o jazz sempre casou bem no passado, onde um exemplo bem notório é o Máquina Mortífera. A Jessica é praticamente a versão feminina do detetive Riggs, vivido pelo Mel Gibson na quadrilogia clássica (embora a trilogia seja mais clássica).

Terminando o primeiro episódio eu fiquei feliz, primeiro por ver que era excelente, digna do meu escasso tempo “desperdiçado”, mas ao mesmo tempo pensei que a “estreia” da super heroína solo tinha que ser dessa forma. A atriz Kristen Ritter, além de boa atriz – o que falhou Charlie Cox no Demolidor – é bonita, mas não é sensual, não é apelativa, é praticamente uma mulher comum, e com isso já desconstruiu a principal utilização da mulher no cinema e na tv. Outra coisa, ela é humana. Ela defeca, ela tem medo, titubeia, ironiza, se entedia, se arrepende… ela é real.

Jessica JonesEla se veste mal, tem um empreguinho de merda, anseia por independência, luta por um futuro melhor e feliz, se apaixona. Agora imagina que ela é poderosa. Por que passar por isso? Mulheres foram maltratadas por tanto tempo, por que não tomar o poder à força!? E o tal empoderamento da mulher? Aí é que tá… o empoderamento da mulher não é para subir ao trono, e sim para não ter trono. A Jessica não pensa nesse início em ser heroína, ela está ciente de seu poder, mas o usa tão comedidamente que na maior parte você até esquece que ele existe.

E cara, o vilão. O homem púrpura (acho que não vão dizer a alcunha de vilão dos quadrinhos, não sei), o Kilgrave. Ele é machismo personificado! É toda submissão que os homens lançaram às mulheres ao longo dos tempos, obrigando-as a fazer aquilo que elas não queriam, acuando e subjugando, tornando-as indefesas, simbolismo maior não há.

Por fim o mais legal é o fato de ela ser desconhecida, e ainda assim estar aparecendo bem, com destaque, recebendo bons elogios da crítica e do público, afinal, a Mulher Maravilha tem fã demais pra poder haver isenção completa. Jessica Jones veio sem hype, assim como as mulheres saíram do anonimato e apareceram para o protagonismo da sociedade. E abre caminho para as próximas que virão, como a própria Mulher Maravilha, Capitã Marvel, Mulher Aranha, Viúva Negra, Batgirl, a muçulmana Miss Marvel… tantas personagens interessantes que não precisam ser sombra de um homem.

Acho que só por esses simbolismos a série já vale, e não estou aqui para fazer uma crítica da série mas já adianto que o que vi até aqui vale. Um bom tema, boas atuações, clima noir bacana, vilão interessante, fotografia e trilha envolventes, eles realmente têm que ter feito alguma cagada bonita lá na frente pra estragar o que já vi. Mas sei que não vão. As mulheres não merecem isso. Parabéns mulher, agora sim você está representada, e sem tangas, decotes, peitões e bundões.

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Gobbo

Há muito tempo atrás, numa galáxia muito distante (conhecida como Espírito Santo, no Brasil, acredite, esse lugar existe!), Gobbo perambulava por uma calçada quando, sem saber, andou em sincronia perfeita no tempo e espaço com um antigo ritual da tribo Roken Row, que despertou índios em estado inanimado em uma caverna do Téquissas, e então ele se transformou em… nada. Continuou sendo o mesmo cara, mas uma antiga profecia Roken Row diz que aquele que acionar os índios através do ritual, deve ser munido de toda cultura inútil quanto possível, para que assim ele possa fazer algo que não se sabe o que, mas que trará um grandioso resultado, que não se tem idéia. E desde então ele vem sendo observado sem notar, e tem absorvido uma quantidade absurda de informação desnecessária, tornado-o em: um cara comum qualquer que passa do seu lado e você nem nota.

  • Excelente Gobbo! Somente você para enxergar no meio de tanta putaria essa mensagem tão explícita… nas entre linhas!

    • Quarta temporada, veio a frase: “homens e o poder, isso é uma doença grave.”
      Não é entre linhas =P

  • Gustavo Costa

    Boa resenha. Gostei bastante da série. Sempre li as histórias de Luke Cage, então é bom vê-lo também, ao lado da Jessica.